Adhemar, o Absoluto

1952. Helsinque, Finlândia. Olimpíada. O mundo se prepara. Está prestes a surgir um dos maiores atletas da história do salto triplo mundial. Em suas seis tentativas, o medalhista de ouro vai bater sucessivamente o recorde mundial da prova por quatro vezes: 16,05m; 16,09m; 16,12m e, por fim, 16,22m, o salto que levou o menino de origem humilde, nascido no bairro da Casa Verde, na Capital paulista, ao topo do atletismo internacional.

O garoto Adhemar Ferreira da Silva, sob intensos aplausos, deu uma volta no estádio, em agradecimento. Foi a primeira vez que alguém fez isso, inaugurando o que passou a ser conhecido como a volta olímpica de grandes campeões em toda e qualquer modalidade esportiva.

Difícil sequer imaginar a pressão psicológica sofrida por um atleta que atua numa competição de tão alto nível. As pernas tremem, o fluxo da respiração é alterado pela adrenalina da emoção e do medo de fazer feio. Além de sua qualidade técnica exemplar, Adhemar foi grande por dominar, como os génios, suas emoções.

Talvez a responsabilidade não pesasse tanto sobre os ombros de Adhemar em Helsinque. Afinal, não figurava entre os atletas favori- tos ao ouro. Poderia saltar tendo a tranquilidade a seu favor. Mas quem assim pensou se enganou quatro anos depois quando, em Melbourne, na Austrália, ele repetiu a façanha, administrando com destreza o leque de sentimentos pertinentes a uma Olimpíada.

Corria o ano de 1956. Eo garoto da CasaVerde, mais uma vez, não tomou conhecimento das potências mundiais que o cercavam. Cravou 16,35m, estabelecendo novo recorde olímpico. Isso apesar de uma terrível dor de dente que ele teve dois dias antes da competição, fato de que os espiões da época desconfiavam, mas não tinham certeza.

Adhemar só seria igualado como bicampeão olímpico 48 anos depois pelos iatistas Robert Scheidt, Torben Grael, Marcelo Ferreira e pelos jogadores de voleibol Giovanni e Maurício. Por tudo isso, ele é considerado, pela IAAF - a maior entidade do atletismo mundial - como o segundo maior triplista de todos os tempos, atrás apenas do russo Viktor Saneyev. 

Patrimônio do desporto brasileiro, Adhemar começou a competir ern 1947, após uma conversa com José Masucatto, da equipe de atletismo do São Paulo. "Achei a palavra atleta bonita. E decidi que queria ser um", diria tempos depois.

Sua primeira competição foi no Campeonato de Estreantes em 1947, obtendo, em São Paulo, a marca de 13,50m. É pentacampeão sul-americano e tricampeão pan-americano (1951,1955 e 1959). Venceu o campeonato luso-brasileiro, em Lisboa (1960). Foi dez vezes campeão brasileiro, tendo mais de quarenta títulos e trofeus internacionais. E, pouca gente sabe, campeão japonês.

Adhemar foi absoluto também na vida. Seu espírito inquieto o levou a se graduar em di- versas profissões: escultor, professor de educação física, relações públicas, ator na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes e no filme franco-italiano Orfeu Negro, de 1962 ( Oscar de melhor película estrangeira ). 

  
Curiosidades

Além de responder pelo cargo de primeiro se- cretário do Instituto Memorial do Salto Triplo, Luiz Roberto Rodrigues é um dos maiores conhecedores da saga vitoriosa de Adhemar Ferreira da Silva. Dele, foi acima de tudo amigo. De tal forma que recebeu de presente, das mãos do bicampeão olímpico, réplicas de suas duas medalhas de ouro olímpicas. Um dos raros a merecer tamanha distinção. Aqui, Luiz Roberto conta algumas passagensdo velho Adhemar:

Londres 1948: Em sua primeira participação em Olimpíada, no ano de 1948, em Londres, capital da Inglaterra, Adhemar não conseguiu se aquecer direito, pois ficou surpreso com o público, cerca de 120 mil espectadores. Assustado, perguntou a um atleta argentino: "Quem vai jogar depois"? Ele não acreditava que aquele público todo, estivesse ali para assistir atletismo. Achava que, depois, haveria uma partida de futebol. Um clássico daqueles de derrubar quarteirões de emoções.

Campeão Japonês: No seu invejável currículo esportivo, Adhemar tem um título que desperta curiosidade, o de campeão japonês. Como ele bateu o recorde mundial da prova do sal- to triplo que pertencia a um japonês, Naoto Tajima, foi convidado a fazer um estágio no Japão, no ano de 1952. Acompanhado de seu técnico Dietrich Ulrich Heindrich Gerner, Adhemar passou vários meses naquele país. Durante sua estada, acabou disputando o campeonato japonês de salto triplo, sagran- do-se campeão.

Entre os melhores do século XX: Adhemar Ferreira da Silva foi o único atleta sul-americano a figurar no livro de ouro da lAAF-Federação Internacional de Atletismo. A publicação elenca os maiores atletas da modalidade do século XX.

Estrelas em camisa: Os mais jovens torcedores do São Paulo Futebol Clube muito possivelmente não sabem. Mas duas das cinco estrelas que o tricolor do Morumbi tem acima do escudo, as douradas, representamas quebras de recorde mundial por Adhemar, então, atleta do clube (1952 - Helsinque - Finlândia e 1955 - Cidade do México). 

  
Principais Conquistas
  • Decacampeão Paulista
    • São Paulo Futebol Clube, 1947a 1956;
       
  • Hexacampeão Brasileiro
    • 1952 a1957;
  • Pentacampeão Carioca
    • Clube de Regatas Vasco da Gama, 1957 a 1961;
  • Pentacampeão Sul-americano
    • 1950,1952,1954,1956 e 1958;
  • Tricampeão Pan-americano
    • Buenos Aires,1951, Cidade do México, 1955, e Chicago, 1959;
  • Bicampeao Mundial Universitário
    • Dortmund, Alemanha, 1953 e San Sebastian, Espanha,1955;
  • Bicampeao Olímpico
    • Helsink, Finlândia, 1952 e Mel- bourne, Autrália, 1956;
  • Campeão Japonês
    • 1952;
  • Campeão Luso-Brasileiro
    • Lisboa, Portugal, 1960;
  • Tetracampeão Paulista do Esporte Universitário,
    • 1952 a1955;
  • Bicampeao Brasileiro do Esporte Universitário,
    • 1953 e 1955;
  • Campeão dos "Relays" Americanos
    • Estados Unidos, 1958;
  • TROFEUS, COMENDAS E TÍTULOS:
    • Trofeu Helms Fundation, Estados Unidos;
    • Trofeu Taher Mohamed, Turquia;
    • Cavalheiro Sul-americanodo Atletismo, Chile;
    • Campeão do Cavalheirismo e Esportividade, Chile;
    • Medalha do Mérito Esportivo, Brasil;
    • Cidadão Coquimbano, Chile;
    • Cidadão Carioca,Brasil;
    • Cidadão Pontagrossense, Brasil;
    • Atleta Padrão, Brasil;
    • Ordem Olímpica do COI-Comitê Olímpico Internacional;
    • Adido Cultural do Brasil na Nigéria,1964 a1967;
    • Único atleta sul-americano a figurar no livro da IAAF que conta a história do atletismo no século XX.

  
Dados Pessoais
Atleta: Adhemar Ferreira da Silva
Filiação: António Ferreira da Silva e
Augusta Nóbrega da Silva
Data de nascimento: 29/09/1927
Naturalidade: São Paulo
Início da carreira: São Paulo Futebol Clube 
Técnico: Dietrich Ulrich Heindrich Gerner

  
 
 
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